Gestão das emoções como arma de controle ideológico das mulheres



Algumas mulheres me perguntam sobre inteligência emocional e carreira. Refleti sobre a pergunta. Elas gostariam de controlar melhor as emoções e seus 'gatilhos' para que pudessem progredir no ambiente de trabalho.

São mulheres competentes, algumas delas sustentam a família, outras conciliam o papel profissional com o de mãe. Articuladas, informadas, atualizadas e com garra para lidar com os desafios da vida e do trabalho.

Há um senso comum que rotula as mulheres como seres emocionais. A mulher é associada à emocionalidade e por isso mais propensa a ter descontroles e rompantes. É comum escutar de forma pejorativa: 'ela é louca'. Aqui me lembro de Engels: a ideologia é a falsa representação da verdade, escreveu ele. Quando pensamos sobre o universo feminino, essa premissa parece fazer sentido.

Logo, se a mulher é descontrolada e propensa a ser 'louca', ela precisa aprender a gerir e controlar as suas emoções. Assim é que nasce a demanda para se falar sobre 'inteligência emocional', como se ferramentas instrucionais pudessem ensinar a domar o universo subjetivo e pulsante feminino.

Aqui entre nós, basta dar um google para ver homens, dos mais famosos aos desconhecidos, tendo toda a sorte de 'pitis'. Não se trata aqui de criar ou incitar a guerra entre sexos, mas de pensar que manifestações emocionais são comuns a todos. Quando pesquisamos um pouco mais chegamos a institutos que trabalham pesquisas e afirmam que mulheres conseguem lidar tão bem com suas emoções quanto homens. É claro, que estes dados são interessantes, mas nunca podemos perder de vista a singularidade de cada um, não importa o gênero.

Se as manifestações emocionais, são comuns a todos, pelo fato de ser parte da natureza humana, por que a ideia de descontrole emocional é associada a figura da mulher? Parece haver uma função oculta de manter a mulher a um lugar de subjugação. Vou além, parece que isso funcionou por muito tempo. Trata-se a gestão das emoções como uma arma de controle ideológico das mulheres.

Vemos alguma mudança, os movimentos ativistas estão ai para trazer essa mensagem e pessoas vem questionando este estado de subjugação, especialmente nos ambientes profissionais. É visível que isso se estende aos demais ambientes também, nos casamentos, na família, no ambiente social. Muitas fichas ideológicas são atribuídas às mulheres. Uma mudança e reparação me parecem muito necessárias.

Muito mais que aprender sobre como domar e controlar as emoções, é vital lutar por um ambiente profissional que consiga acolher a sensibilidade humana. Para todos e todas. O benefício será coletivo.

O foco não é aprender inteligência emocional, mas sim criar ambientes de trabalho e outros mais que possam acolher a sensibilidade humana como algo natural e como um ponto de partida de elaboração, troca, reflexão. Utopia? Não sei. Necessário? Mais do que nunca.

É uma grande armadilha desconsiderar que a sensibilidade e demonstração das emoções é comum na constituição dos subjetividade humana e isso tem trazido efeitos nefastos aos também aos homens. Homens que são presos a essa fórmula identitária de força e poder e que só produz adoecimento. Até quando seremos coniventes com isso?